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"As mãos do fogo": desistir não é uma opção.

Por Fernanda Trigo Costa


O fogo, os gravetos e a lenha sempre estiveram lá... mas eram poucos os que sabiam como manter a fogueira...


Naquela aldeia sobreviver dependia do outro. Tudo era interligado, integrado, coletivo, sincronizado. O grande ancião tomava as decisões com a colaboração dos pequenos líderes e confiava, apenas confiava e observava. Incrivelmente tudo funcionava.


De todas as tarefas, a mais importante era a de cuidar da fogueira. A fogueira era o coração da aldeia, dali saia o fogo que aquecia, iluminava, queimava, cozia... E para isso, o grande ancião, com sua sabedoria, havia determinado que apenas uma família da aldeia fosse responsável por esse nobre legado.


Todos os dias, antes mesmo do sol nascer, os integrantes da família se perfilavam um ao lado do outro e se davam as mãos em torno da fogueira. Faziam uma oração e iniciavam os movimentos.


Conforme a atribuição de cada um, iam colocando a lenha, os gravetos e soprando, soprando, até que o fogo, o qual havia ficado adormecido durante à noite, voltasse a ganhar força e alimentar a aldeia.


No grande círculo que protegia e sustentava a fogueira, cada integrante soprava da sua maneira, e os sopros de várias formas e em diversos sentidos, eram essenciais para que o fogo ficasse cada vez mais forte e balançasse de um lado para o outro, hora subisse, hora baixasse.


Na chuva, na ventania, no frio ou no calor escaldante, as mãos permaneciam dadas, fortemente conectadas, para que o círculo protetor não se desfizesse. Se um dos integrantes precisasse sair, por qualquer razão, os demais se esticavam, nem que precisassem ficar mais próximos da fogueira, mas não permitiam que o círculo se quebrasse, as mãos permaneciam dadas.


Por mais árdua e dura que fosse essa tarefa, a família mantinha esse legado por anos, décadas, gerações. Todas as noites, quando as mãos se soltavam, era o momento em que cada um se deparava com as cores, o calor e a luz que emanava da fogueira que estava alta, bela e intensa. Sabiam que tudo seria igual no dia seguinte, mas sentiam, em suas mãos, o dever e o prazer de fazer o coração da aldeia bater forte novamente.

Aquarela Sol-Fogo JOSÉ RENATO FERRAZ

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