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Embarcar

Por Fernanda Trigo Costa


"Quando uma pessoa vive de verdade,

todos os outros também vivem". (1)


O barco atracado no cais detinha um passado. Ela nem sempre esteve no controle do leme, tantas atribuições lhe eram destinadas, mas era a dona do barco. Desta vez, sair em viagem havia sido uma escolha própria, sentida do pulsar interior, proveniente do desejo de ir além, de desbravar rotas jamais percorridas. Encontrar o conhecido esquecido.


Não existia um plano de fato, tampouco uma data. Mas o barco sairia no momento em que ela sentisse que tinha, ao menos, o mínimo de recursos necessários para a viagem. No decorrer do passado, alguns baús foram sendo acumulados, mas nem todos seriam úteis neste momento.


Ela garimpou e se deparou com muitas relíquias,

mas se desfez de várias bugigangas.


Percebeu que o fato de ter se livrado de certas coisas do passado chamou a atenção. Curiosos passaram a observa-la e a recíproca foi verdadeira.


Do pulsar, surgiu a necessidade de um recurso inesperado. Então, elegeu companheiras de viagem dentre os curiosos. Todas passaram a garimpar seus baús. Quantas bugigangas, quantas relíquias. Agora poderiam partir.


Na viagem, todas as belas mulheres, jovens, velhas e no meio do caminho, que se procuravam, que trabalhavam em busca de ser mãe-irmã-filha, se deram conta de que eram um refúgio umas para as outras. Perceberam que estavam juntas para que a menos experiente e a mais experiente pudessem encontrar seu lar, o lar lugar da alma onde haja necessidade do amor, onde habite o amor(1).


E essas mulheres, de corações peregrinos,

jamais voltaram ao ponto de partida.

Permanecem viajando, navegando, encontrando-se.

Percebem-se e se conectam.

No círculo se fortalecem.

Do círculo fortalecem os perímetros.

Alimentam o lar.

O lar lugar da alma do mundo.


(1) Clarissa Pinkola Estés - A ciranda das mulheres sábias, p. 103.


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