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Minhoca no bico

Por Fernanda Trigo Costa

Há tempos não parava pra escrever.

Como faz falta colocar as palavras no papel e a cabeça no lugar.

Então, escrevi e não publiquei. Porque não deu tempo. Será?


Esse tempo que temos e perdemos, que gastamos sem ter.

Tempo que passa e cura, mas não cura tudo.

Tempo que encorpa a saudade do que tivemos num tempo que se foi.

De momentos que moram num sem tempo.

Num sei onde.

No coração sabido.

No coração sentido.

No sentido sem tempo.


Parei o tempo pra sentir.

E tudo fez sentido.

Eis o texto, em tempo.


Minhoca no bico


Parei a uma quadra e meia do trabalho, como já de costume. É um trabalho novo, mas é impressionante como a repetição, mesmo que por pouco tempo, faz com que a gente se acostume com pequenas coisas. Não sei se isso é bom ou ruim.


Fiquei na dúvida se colocava a blusa fina ou se pegava o guarda-chuva, ou os dois, porque aqui em São Paulo está ainda mais difícil saber se faz as quatro estações em um dia ou se já foi criada alguma nova estação pra explicar o que anda acontecendo com o tempo. Catorze graus em pleno novembro é um tanto inesperado, se é que algo anda previsível ultimamente. Digamos que a previsão para toda e qualquer tomada de decisão tem sido de curto prazo, assim como a previsão do tempo: com algum grau de certeza, apenas para os próximos 10 dias. E olha que chega a ser ousadia. Depois da pandemia, audacioso daquele que planeja algo para a semana que vem.

Escolhi apenas a blusa, a garoa estava fraca. Atravessei na faixa e, no meio do quarteirão, eis que aparece um sabiá laranjeira de um arbusto, na calçada, com uma minhoca no bico. Ao me ver, ele se assustou. A minhoca partida em dois no chão, ele sem a minhoca. Eu parei por assustá-lo. Percebi que ele parou também. Em uma fração de segundo eu recuei dois passos, por respeito à sua refeição. Gozando de uma breve segurança, ele torna a colocar uma metade da minhoca no bico e a engole rapidamente. Ao vê-lo pegar a outra metade, sorrio e penso: “agora vá”. O Sabiá laranjeira voa com a minhoca no bico e eu retomo meu caminho. Sabiá alimentado, meu coração em paz.


O sonho que eu tive durante à noite ainda ressoava em meus pensamentos: eu, na figura de mãe, junto com meus filhos e mais outras pessoas, estávamos em uma outra dimensão, e lá havia um trem subterrâneo. Em uma espécie de central de controle, havia algumas telas, — a maioria em manutenção com fios pendurados —, mas era possível identificar em uma delas a imagem de uma curva normal que monitorava constantemente algum sinal. Eu carregava nas mãos um trem de madeira articulado com vagões e precisava voltar para esta dimensão com aquele trem, mostra-lo ao meu marido, para que os outros também saíssem daquela dimensão.

Acordar com esse sonho tão vivo em minha mente, fez com que eu abrisse o bloco de notas do celular para registrar essas passagens. Lembrei-me de que a última vez que fiz esse tipo de registro foi há exatos dois anos, nesse mesmo dia do ano, quando acordei com a imagem da minha prima mais nova me mostrando uma planta florida dentro de um aquário. E minha prima me dizia: "ela precisa de um lugar menos evidente pra amar". Na época, fiquei mais de uma semana tentando entender o que essa frase podia significar. Em vão.


Dia longo, chuvoso e frio. Casa e banho quente. O banho é meu lugar de ócio. É como se tudo de encaixasse.


Do banho a uma pesquisa rápida. Há dois anos, naquela tentativa em vão, eu li essa reflexão de Danilo Martucelli, no artigo intitulado “O indivíduo, o amor e o sentido da vida nas sociedades contemporâneas”:


“Para os Crentes, os Cidadãos e os Burgueses, aqueles para quem o sentido da vida continua depositado em Deus, na pátria ou no trabalho, tudo há de parecer insignificante. Mas para aqueles que, como indivíduos modernos inseridos em sociedades modernas, procuram o sentido da vida – e de suas vidas – a partir de, e por meio do amor mundano, a insignificância da vida é, com intensidade sem precedentes, o destino e o grande desafio de significado da nossa era.”


Ela precisa de um lugar menos evidente pra amar.

O Sabiá precisa de espaço para se alimentar.

O trem precisa resgatar.

Eu sei pelo que lutar.


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