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O alimento e a ancestralidade feminina

Por Fernanda Trigo Costa


Na história da alimentação, a figura feminina sempre esteve vinculada ao alimento. Há quem diga que é por conta da capacidade da mulher em estar sempre atenta aos detalhes, por ser observadora. Outros alegam que está relacionado ao cuidar, seja por atribuição ou por sensibilidade da mulher às necessidades. E muitas mais são as outras relações do feminino com o alimento, grande parte descritas, analisadas, discutidas, contestadas...


Quanto mais eu amadureço, mais vou ampliando o entendimento sobre essa relação. Estudo, sei e sinto que ela transcende os aspectos concretos. Refletir sobre a simbologia do alimento nos leva para algo além do que satisfaz a fome fisiológica ou as necessidades nutricionais. De qual fome estamos falando? Qual é a necessidade de cada um de nós? O que precisamos alimentar diariamente? A partir dessas reflexões é possível começar a compreender como o feminino alimenta a humanidade.

O alimento vem da terra pisada pela sola da mulher descalça. Alimento e mulher compartilham épocas, a influência da lua, dos planetas, das estações do ano... Compartilham ciclos de vida-morte-vida, nascer-morrer-renascer. O alimento vem da natureza, assim como a mulher e toda sua ancestralidade.


Nesse movimento de resgate e reconexão com o Sagrado Feminino, respeito e reconhecimento da essência da mulher, o alimento tem papel de destaque como forma de cuidado, vitalidade, prazer, cura e energia utilizado pelas mulheres para si e para o coletivo.


Comer é um ato sagrado que tem sido condenado injustamente pela sociedade como indevido, criminoso e agressivo, pois entra na categoria de que “tudo o que é gostoso é ilegal ou engorda”. A mulher vem sendo diminuída por anos e anos para caber em manequins cada vez menores, de forma a ocupar menos espaço e não incomodar. A culinária ancestral vem sendo substituída por alimentos “gastronomicamente globalizados” encarregados em encantar e nos fazer esquecer de onde viemos.

O resgate da essência feminina também está relacionado com a forma como essa mulher se alimenta. A mulher que parte para o reencontro de si mesma passa a olhar para a alimentação de outra forma, preocupando-se em respeitar seu corpo e templo, seus sinais, suas vontades, reações e mudanças.


Pensar, olhar, lavar, cortar, mexer os alimentos. Fazer o pão, relembrando cada passo da receita da avó. Preparar um bolo deixando a filha quebrar os ovos e lamber a tigela.


Compartilhar o alimento com pessoas queridas. Respeitar o ambiente, o produtor, a história, a origem. Ligar-se ao que já foi e ainda é. E é por ser essência. Isso é ancestralidade.


Alimentar através do alimento o resgate da nossa verdade.




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